
Levantamento internacional mostra mudanças nos hábitos de consumo de informação, com plataformas digitais ganhando espaço e fontes confiáveis mantendo relevância quando há dúvida sobre o conteúdo recebido
A notícia chega pela redes sociais, entre um vídeo de receita e o story de um amigo. Mas, quando desconfiam do que viram, jovens de 18 a 34 anos procuram primeiro um veículo jornalístico de confiança ou um órgão oficial e deixam a inteligência artificial (IA) no fim da fila, aponta levantamento do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Diante de algo que parece falso, 37% dos jovens nessa faixa etária dizem que recorreriam a uma fonte oficial, como um site do governo, e 36%, a um veículo de notícias em que confiam. Os buscadores aparecem logo atrás (33%), à frente dos sites de checagem (24%). O chatbot de IA é a última opção da lista, citado por 13%.
Os números estão no relatório Understanding Young News Audiences at a Time of Rapid Change, publicado em março, que reúne mais de uma década de pesquisas do instituto em dezenas de países, entre eles o Brasil.
O retrato contraria a ideia de que a nova geração virou as costas para a imprensa. Os jovens apenas mudaram de endereço, mas o jornalismo, em parte, ainda não os acompanhou.
— Eu me informo bastante pelas redes sociais. Acabo olhando o que as pessoas estão falando sobre a situação, tanto fora quanto dentro do país — diz Victor Matheus Ferrugem, 19 anos, estudante de Porto Alegre.
Em 2015, 21% das pessoas de 18 a 24 anos, em 18 países acompanhados pelo instituto, apontavam as redes sociais como principal fonte de notícias. Dez anos depois, em 2025, essa proporção havia subido para 39% — um aumento de 18 pontos percentuais.
No mesmo período, a parcela que apontava os sites e aplicativos dos próprios veículos como principal fonte caiu de 36% para 24%, uma redução de 12 pontos percentuais.
No Brasil, a virada já alcança a população inteira. O Digital News Report 2026, principal levantamento anual do instituto, divulgado em junho, mostra que 53% dos brasileiros usam redes sociais para se informar toda semana, contra 44% que recorrem à TV.
O Instagram virou a principal porta de entrada: 49% o usam para notícias, 12 pontos percentuais a mais do que no ano anterior. WhatsApp (46%) e YouTube (42%) vêm em seguida, e um em cada três brasileiros (33%) acompanha criadores de conteúdo dedicados a notícias.
Como os brasileiros se informam:
53% usam redes sociais para se informar semanalmente
44% recorrem à televisão
49% usam o Instagram para notícias
46% usam o WhatsApp
42% usam o YouTube
33% acompanham criadores de conteúdo dedicados a notícias
A mudança tem custo. A confiança nas notícias caiu seis pontos no país e chegou a 36%, o menor patamar em 12 anos de série. Quase metade dos brasileiros (47%) diz evitar o noticiário às vezes ou com frequência, e só 15% pagam por notícias online.
É nesse cenário que se celebra, nesta segunda-feira (28), o Dia Mundial do Jornalismo. Com o tema “Escolha a verdade. Escolha os fatos. Escolha o jornalismo confiável”, a campanha reúne mais de mil redações em mais de cem países.
No Brasil, a mobilização é articulada pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) e pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e soma mais de 120 veículos, entidades e profissionais inscritos, um recorde de participação.
Da sala de estar para o feed
Durante décadas, o primeiro contato com o noticiário acontecia dentro de casa, diante do telejornal que a família assistia reunida ou do jornal assinado pelos pais.
No cursinho pré-vestibular Universitário, na Capital, Lucas José, 19, faz parte dos jovens que mantêm alguns desses hábitos. Ele se informa pelas redes sociais e pela internet, mas diz não abrir mão de ler jornal.
— É um meio de acompanhar o país, de ver a situação econômica e política também — afirma.
A presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta e presidente do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional, Patrícia Blanco, conta que tomou gosto pelas notícias assim, folheando os jornais que o pai assinava em São Paulo. Esse hábito se perdeu, e o jovem de hoje chega ao conteúdo jornalístico por outro caminho.
— Ele não é mais o assinante do veículo A ou B, mas segue o perfil de jornalistas e se informa a partir deles. Temos um dilema: ele acessa a notícia por meio de uma rede social, mas não paga por ela. Daí vem a necessidade de formar audiências críticas, que valorizem o conteúdo jornalístico e passem a pagar por ele por entender que isso é importante no seu processo de informação e de formação — observa Patrícia.
Na sala de aula, a percepção se repete. Os estudantes seguem consumindo a imprensa, só que do jeito deles: acompanham veículos e jornalistas pelas redes sociais, inclusive das marcas jornalísticas. Parte deles migra dali para o site dos veículos, relata o coordenador do curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Andrei Rossetto.
— Não dá para dizer que esses jovens não leem mais, não acessam mais. Essa não é a realidade. Eles não consomem da forma como eu consumia, mas continuam consumindo. Vivemos na economia da atenção, com estímulos o tempo todo — afirma.
Rostos, vozes e criadores
Segundo o relatório Understanding Young News Audiences at a Time of Rapid Change, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, 51% dos jovens de 18 a 24 anos que usam redes sociais para se informar dizem prestar mais atenção a criadores de conteúdo e personalidades do que a veículos e jornalistas, citados por 39%.
O relatório pondera, porém, que na América Latina e na Europa mesmo os mais jovens ainda dão mais atenção à imprensa quando buscam notícias nas redes.
Na média global, o público considera os criadores mais divertidos, fáceis de entender e próximos da própria realidade do que os veículos tradicionais. Em contrapartida, atribui a eles menor confiabilidade e imparcialidade.
Informação em pedaços
Para o presidente-executivo da ANJ, Marcelo Rech, a multiplicação de plataformas tem duas faces. Ampliou o acesso à informação, que passou a estar presente em diferentes meios e momentos do dia, mas embaralhou a fronteira entre o que é imprensa e o que apenas se parece com ela.
— Nos últimos 15 anos, houve uma fragmentação muito intensa das fontes de informação e uma mistura entre o que é de fato imprensa e aquilo que se mimetiza como imprensa, como os chamados criadores de notícias. Os jovens continuam se informando, ou acreditam que estão se informando, mas de forma fragmentária, muitas vezes sem contexto, sem verificação e sem saber se a fonte tem credibilidade — aponta Rech.
O dirigente cita como exemplo extremo a crise migratória em Ceuta, território espanhol no norte da África, no fim de julho. Publicações em redes sociais e grupos de mensagens espalharam que a fronteira com o Marrocos estava aberta e que quem chegasse a nado poderia ficar na Europa.
Cerca de 60 mil pessoas, a maioria jovens marroquinos, entraram no enclave, grande parte delas nadando. A maior parte retornou ao Marrocos em poucos dias. Autoridades espanholas contabilizaram ao menos 88 mortos, enquanto o governo marroquino informou 11 óbitos.
— Esse tipo de desinformação, vinda de fontes não qualificadas, produz danos que podem chegar à morte. É muito grave o que está acontecendo, e isso merece uma reflexão da sociedade sobre como qualificamos essas fontes, sobretudo agora que o mundo migra cada vez mais para a inteligência artificial — alerta.
Profundo e claro
Os motivos de quem foge do noticiário ajudam a entender o afastamento. No mundo, a principal razão, em todas as idades, é o efeito negativo das notícias sobre o humor. Entre os jovens de 18 a 24 anos que evitam notícias, porém, 21% dizem que elas não parecem relevantes para a vida deles, e 15% afirmam ter dificuldade de acompanhar ou entender o que leem. Entre quem tem 55 anos ou mais, os índices são de 16% e 5%, respectivamente.
O coordenador do curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Daniel Feix, lê o número por outro ângulo. Para ele, admitir que não entende é diferente de não entender, e a franqueza dos mais jovens pode até ser um sinal positivo num país com altos índices de analfabetismo funcional.
— Meus alunos são muito sinceros quando não entendem, quando acham algo complexo demais. Estão mais abertos a entender. Talvez a pessoa mais velha sinta um pouco mais de vergonha de admitir que algo está além do seu repertório — comenta Feix.
O professor reconhece, no entanto, que a outra parte da conta cabe às redações e sustenta que clareza e profundidade podem andar juntas no mesmo texto.
— No jornalismo, quanto mais claro, melhor. Quando conseguimos ser profundos sendo claros, é o ideal. O que vejo são jovens dispostos a encontrar a profundidade, mas é preciso ter clareza para chegar até eles — pondera.
Rech defende mudanças na edição e na abordagem de temas complexos, como geopolítica e economia. A ideia é aproveitar recursos da linguagem das redes sem copiar os vícios delas, como os apelos de urgência e o sensacionalismo usados por produtores de conteúdo pouco qualificados para prender a atenção.
— Podemos e devemos ser um pouco mais vibrantes, mais rápidos, mais instigantes, esteticamente mais atrativos e contemporâneos. O grande desafio é tornar o importante mais interessante e mais simples, sem perder a substância, a credibilidade e a integridade da informação — afirma o presidente da ANJ.
Longe da realidade de quem lê
A dificuldade vai além da linguagem. No levantamento de Oxford, 31% dos jovens de 18 a 24 anos dizem que pessoas da idade deles recebem pouca cobertura da imprensa, e 35% consideram injusta a forma como são retratados. Entre quem tem de 35 a 54 anos, esse último índice fica abaixo de 25%. Patrícia ouve a mesma queixa nas escolas por onde o instituto passa.
— Quando conversamos com jovens, principalmente nas escolas, eles dizem que não se sentem representados pelos veículos de imprensa. Não conseguem se ver ali. A linguagem é sempre “adultizada”, e a cobertura sobre o jovem é feita com uma visão centrada no adulto — relata.
Outra crítica recorrente, segundo ela, é o distanciamento dos problemas concretos, com uma cobertura macro e pouco conectada ao que importa para quem está terminando a escola ou vai votar pela primeira vez. A saída passa por traduzir o noticiário para o universo de quem lê.
— É olhar pela ótica desse jovem, que está começando, com tantos dilemas. “Por que votar é importante para mim? Por que eu, com 16 anos, preciso exercer o meu direito de escolha? Em que uma disputa no Supremo Tribunal Federal afeta a minha vida?” Mostrar por que a informação é importante para ele é essencial para atrair o jovem ao consumo jornalístico, esteja ele onde estiver — reforça Patrícia.
Nesta segunda-feira, os veículos inscritos na campanha do Dia Mundial do Jornalismo vão publicar anúncios, vídeos, cartoons e artigos para mostrar, por dentro, como funcionam a apuração, a checagem e a correção de erros nas redações.