
O presidente do Hospital de Caridade, Ademir Dreier, e o administrador, Tarcísio Dreher, detalharam questões sobre a situação financeira da instituição, na manhã de hoje, em coletiva de imprensa no auditório do hospital. Na última sexta-feira, a entidade conseguiu quitar pendências com seus 266 funcionários, que estavam com salários atrasados referentes a 50% do básico de novembro, vencimentos de dezembro e 13º salário.
Segundo Ademir, a instituição teve de realizar uma renegociação, através da Caixa Econômica Federal, encaminhando um financiamento de cerca de R$ 3,5 milhões, onde R$ 1,2 milhão serão descontados para quitar um empréstimo que já havia sido contraído, e o restante, mais ou menos R$ 2,3 milhões, serão investidos para o pagamento de pendências com funcionários, médicos e fornecedores. Essa renegociação demorou mais do que o previsto, mas o presidente do hospital garante que foi mais vantajosa, pois os juros caíram de 2,29%, para 1,7%, um ganho de mais de 0,5%, o que representa cerca de R$ 500 mil.
Os valores foram depositados na conta do hospital na quarta-feira, mas estavam bloqueados, em função de que a documentação original não estava ainda em Brasília, para ser liberada. Servidores da agência da Caixa em Três Passos, de acordo com Ademir, foram fundamentais para que pelo menos uma parte do montante fosse liberada até sexta-feira, possibilitando o pagamento dos vencimentos dos funcionários. A totalidade dos recursos somente será desbloqueada após o recebimento de aval da Caixa. “A grande falha nossa foi ter divulgado aos funcionários que na quinta-feira se faria o pagamento, porque o dinheiro estava na conta, mas não percebemos que continuaria bloqueado para o nosso uso, o que criou uma expectativa no quadro de funcionários, não se concretizando o pagamento na quinta e gerando uma maior insatisfação por parte deles na sexta-feira, com toda a razão”, admitiu Ademir.
A próxima luta da direção é conseguir a liberação dos recursos, para conseguir quitar as pendências com os médicos.
Para o restante de 2016, Ademir acredita que não havendo atrasos nos repasses que são feitos pelos governos federal e estadual, já que 80% dos serviços prestados na instituição são através do SUS, pode haver um maior equilíbrio nas contas. O hospital tem de receber mais de R$ 1,4 milhão que estão atrasados dos últimos dois meses de 2015: são R$ 375 mil de incentivos (referentes a novembro) e mais R$ 1,06 milhão (referentes a dezembro, via contrato através da prestação de serviços).
O valor bruto da folha de pagamento de funcionários gira em torno de R$ 570 mil, com um total de 266 funcionários. A folha de pagamento do corpo clínico, composto de 40 a 45 médicos, em torno dos mesmos R$ 570 mil.
Hoje os débitos pendentes com médicos está em cerca de R$ 1 milhão e com fornecedores outros R$ 600 mil. A ideia é utilizar os recursos do financiamento e contar com os pagamentos em dia dos governos, para que sejam quitadas as pendências e se possa ter um fluxo de caixa que equalize os compromissos financeiros da entidade.
Hospital se torna referência regional em traumato de alta complexidade e negocia quatro novos serviços
Para além das dificuldades financeiras, o hospital três-passense também tem boas notícias para a comunidade regional.
No início de dezembro um novo contrato com o governo estadual foi estabelecido para prestação de serviços, com uma ampliação na oferta. A instituição oferecerá oito cirurgias de traumatologia de alta complexidade por mês, figurando como referência para os 21 municípios da 19ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), com sede em Frederico Westphalen. Isso vem a se somar às cerca de 30 a 40 cirurgias de traumato de menor complexidade, que já são realizadas na casa hospitalar.
Também foi conseguido o ambulatório de ginecologia, com mais 240 consultas, tornando-se referência para a 19ª CRS e com 30 cirurgias por mês.
Mais quatro serviços estão sendo negociados com a 19ª CRS, que já está nos trâmites finais, restando passar por última aprovação na Secretaria Estadual de Saúde: plantão para traumatologia (com acréscimo de R$ 40 mil), serviço que já vem sendo mantido pelo hospital; ambulatório bucofacial, para realização de cirurgias, pois já há um profissional médico realizando procedimentos particulares e em contato com o hospital; atendimento ambulatorial de AVC (Acidente Vascular Cerebral), para realização do primeiro atendimento; e um ambulatório de pediatria.
“Estamos no aguardo da pactuação desses quatro serviços, para liberação dos recursos e entrada em funcionamento dessas novas especialidades”, destacou Ademir.
A ideia da direção do hospital é negociar para que pelo menos 50% dos recursos nesses novos serviços sejam repassados à instituição.
A direção do Hospital de Caridade trabalha ainda para a implantação do ambulatório de cirurgias, para que a instituição passe a receber do governo estadual valores referentes à parte ambulatorial e o incentivo disso, que gira em torno de R$ 53 mil. “Hoje o hospital realiza os serviços, mas recebe apenas pelas cirurgias”, afirmou Ademir Dreier.
Saúde mental
Será diminuído o número de leitos mantidos para atendimentos de saúde mental. O governo federal baixou de R$ 45 mil para R$ 18 mil os repasses referentes a esse serviço e o Hospital de Caridade, que disponibilizava dez leitos, agora irá disponibilizar apenas o número de leitos proporcional ao que vem sendo repassado financeiramente, já que os custos seguem sendo pagos pelo hospital para manter a estrutura montada com psicólogo, assistente social, técnicos, enfermeiros e médicos. Serão R$ 324 mil a menos em 2016.
SAMU
O Hospital de Caridade é responsável pelo pagamento da equipe de funcionários vinculada ao SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), através de acordo com as prefeituras da região que possuem Três Passos como referência para este serviço. A ambulância é cedida pela prefeitura para o hospital.
A manutenção do SAMU vem apresentando um déficit mensal de R$ 13 a 16 mil, variando em alguns meses, com o hospital tendo de pagar. “Temos R$ 97 mil para receber”, diz Ademir, valores esses que não foram repassados pelas esferas federal e estadual.
Dessa maneira, a direção do hospital irá propor que as prefeituras assumam esse serviço ou que seja encontrada uma forma de equalizar esses gastos, sem que o hospital tenha de arcar com as despesas. “O hospital não visa lucro, mas não pode arcar com um serviço que não é de sua competência”, destacou.
A base de Três Passos do SAMU, além de atender o próprio município, também é referência para Bom Progresso, Esperança do Sul, Humaitá, Sede Nova e Tiradentes do Sul.
A equipe do SAMU conta com oito profissionais. Para manutenção do serviço é necessário um aporte de cerca de R$ 36 mil mensais.
Novos projetos buscam uma nova realidade para o hospital
No final de 2014 e durante todo o ano de 2015, foi realizado um trabalho de adequação da planta física do Hospital de Caridade de Três Passos. “Hoje, se pretendemos buscar linhas de financiamento com instituições de fomento, como Badesul e BNDES, precisamos estar com a planta atualizada”, confirmou Ademir.
Algumas modificações estão sendo realizadas. Na parte de trás do hospital, na sequência do bloco cirúrgico, será possível realizar uma ampliação e uma reforma do bloco. A idéia é ter seis salas de cirurgia e dez leitos de recuperação. Esse novo investimento ainda irá aproveitar uma construção iniciada no passado e que está abandonada.
Outra edificação que foi erguida e estava sem uso, e que atualmente é utilizada provisoriamente como arquivo, terá como destino um ambiente em separado para obstetrícia, para que as mulheres que passam pelo trabalho de parto possam ficar em um ambiente de maior comodidade, com sala de cirurgia e de repouso em separado ao restante do hospital.
Também está sendo projetada a implantação de uma UCI, que trata do primeiro atendimento para a criança recém nascida. “Leitos para que fiquem em observação quando necessário, com equipamentos e em um ambiente melhor do que o atual”, destaca o presidente do hospital.
Com o aumento ambulatorial da ginecologia, serviços de pediatria, além da traumato e neurologia, há um movimento grande junto ao pronto atendimento. Em mais um espaço que está sem utilização no hospital, pretende-se estabelecer todo o ambulatório, qualificando o atendimento que tem uma média de 240 consultas em cada ambulatório por mês.
Para concretização dessas obras, está sendo buscado um financiamento através da Caixa Econômica Federal e do Badesul, com recursos do BNDES, de cerca de R$ 3,5 milhões, possibilitando uma nova realidade estrutural e financeira para a instituição.
Outro ponto destacado pelo presidente do hospital são as melhorias obtidas através de uma maior eficiência na gestão de contratos. “Identificamos uma perda de receitas. Algumas em função dos ambulatórios, onde eram prestados os serviços, mas não havia os contratos com o Estado, e também tabelas de valores de serviços particulares desatualizadas”.
Foi ampliado o faturamento de serviços particulares, entre 40 e 50 mil reais mensais, sem haver aumento nesses serviços. “Tivemos o mesmo número de atendimentos, mas a receita se ampliou”, destaca Ademir.
O contrato com a Unimed também vem sendo melhor absorvido pela equipe administrativa. De um faturamento que ficava entre 70 e 80 mil reais mensais, hoje já se atinge até R$ 180 mil. “Na última semana foi fechado acordo com a Unimed para reajustar em 12,2%, recuperando o valor da receita junto a eles”, ressalta o presidente do hospital. Mantendo-se esse número de atendimentos, os R$ 180 mil já deverão ser corrigidos ao índice de 12,2% no próximo mês.
Também ocorreu atualização do sistema e foi valorizada a capacitação para a equipe de faturamento, assim como a equipe de enfermagem e de técnicos, melhorando substancialmente a gestão.
“Deixávamos de cobrar do SUS vários serviços no ambulatório de urgência e emergência. Todo paciente que chega ao hospital faz uma triagem, que consiste em verificação da pressão arterial, temperatura, batimentos cardíacos, entre outros. Esse procedimento inicial pode ser cobrado do SUS, sendo um valor de R$ 6,00. Soma-se a isso, mais R$ 10,00 da consulta com o médico, além de R$ 2,30 pela utilização da sala. Dependendo do que for diagnosticado, há o pagamento dos medicamentos utilizados, que varia. Somente em ressarcimento de valores referentes ao uso de materiais para curativos, desde outubro de 2015, foi arrecadado R$ 10 mil. Valores que o SUS paga e que estamos conseguindo melhorar, através da profissionalização na gestão”, garante.
De acordo com Ademir Dreier, na penúltima semana de dezembro esse quadro de novos serviços e investimentos foi apresentado pela direção do hospital aos prefeitos de Três Passos, Bom Progresso, Esperança do Sul e Tiradentes do Sul.
*Vinicius Araujo (Rádio Alto Uruguai)