Por muitos anos, ir ao cinema se tornou um programa raro para quem vive no interior. Com a popularização do streaming e o fechamento dos antigos cinemas de rua, as salas de exibição ficaram concentradas em shopping centers das grandes cidades. Agora, esse cenário começa a mudar.
Nos últimos anos, novas salas voltaram a surgir em municípios do norte do Estado. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o Brasil alcançou, em 2025, o maior número de salas em funcionamento desde 2015, com cerca de 3,5 mil unidades.
O movimento reabre o interesse do público e cria novas oportunidades para exibidores. Em Carazinho, por exemplo, os moradores passaram 14 anos sem cinema. Nesse período, quem quisesse assistir aos principais lançamentos precisava viajar até Passo Fundo.
— Carazinho tinha o Cine Brasília, um dos mais tradicionais cinemas de rua da região. Depois que fechou, em 2011, ficamos mais de uma década sem cinema e dependíamos de outras cidades para ver as estreias — lembra o designer, professor e produtor cultural Alan da Cruz Mafalda.
Percebendo essa demanda, a empresária paulista Mariá Marins inaugurou, em maio de 2025, duas salas de cinema dentro de um complexo gastronômico no centro de Carazinho, devolvendo à cidade uma opção de lazer aguardada há anos.
— Tem sido um sucesso, eu estou muito feliz, porque isso confirma a demanda reprimida por um cinema em Carazinho. A cidade tem grande potencial e a gente atende também as cidades de pequeno porte que ficam no entorno — afirma a proprietária.
Para os apaixonados pela sétima arte, a chegada do cinema é motivo de comemoração, especialmente pela maior acessibilidade e menor custo para frequentar o cinema.
— Ir a Passo Fundo tinha o custo de deslocamento, além do tempo necessário para ir e vir, o que acabava se tornando um obstáculo para a maioria das pessoas. Como o cinema é uma das principais formas de arte do nosso tempo, é muito importante que as pessoas tenham acesso aos filmes nacionais e internacionais, conseguindo frequentar o cinema e consumir cultura — reforça Mafalda.
Entre as iniciativas para atrair e reter o público, o local trabalha com um cartão fidelidade. Além disso, concede meia-entrada a moradores de municípios vizinhos que não contam com salas de cinema, mediante apresentação de comprovante de residência. Os ingressos ficam entre R$ 34,20 a inteira e R$ 17,10 a meia entrada. Nas quartas todos pagam meia.
— É uma loucura, às vezes a gente acha que determinados filmes não vão dar público e, de repente, eles lotam e é aquela correria, aquela delícia — conta Mariá.
Apesar da avaliação positiva, a manutenção de salas de cinema no interior, especialmente por pequenas e médias empresas exibidoras, representa grandes desafios.
— Às vezes é um pouco difícil negociar filmes com algumas distribuidoras, nós temos que cumprir determinadas condições e às vezes fica muito difícil porque as expectativas deles também são muito grandes — explica a empresária.
Parcerias público-privadas
Para expandir as atividades, uma rede de cinemas de Três Passos, no noroeste do Estado, tem investido em parcerias público-privadas. A rede nasceu em 1955, fundada por Abrão Alberto Levy, em um prédio no centro de Três Passos.
Desde 2010, a rede é comandada pela terceira geração da família Levy e transformou um cinema de rua de Três Passos em uma operação presente em sete cidades do norte e noroeste gaúcho. Atualmente, os ingressos custam entre R$ 20 e R$38 a inteira e R$ 10 e R$ 19 meia.
A expansão começou em 2014, em Palmeira das Missões, que estava havia 25 anos sem uma sala de cinema. Por meio de uma parceria com a prefeitura, a empresa passou a operar o espaço e, em contrapartida, oferece ingressos gratuitos para estudantes da rede municipal e descontos para servidores públicos.
Mais do que exibir filmes, os cinemas se tornaram espaços culturais, recebendo shows, apresentações de stand-up, festivais e eventos comunitários.
— Trabalhamos muito com escolas, idosos e assistência social. Também promovemos ações gratuitas e projetos culturais. Isso fortalece a ligação do cinema com a comunidade — disse Levy Filho, sócio-proprietário da rede.
O mesmo modelo de parceria foi replicado em Santa Rosa e e Horizontina. Além disso, a rede também está presente em Frederico Westphalen, Cruz Alta e Ijuí. Na maioria desses municípios, a rede conta com os tradicionais cinemas de calçada.
— O cinema de rua está se aproximando novamente das pessoas. Já os cinemas de shopping vivem um momento mais difícil — avalia Levy.
A pandemia foi um dos períodos mais desafiadores para o grupo. Com as salas fechadas, a empresa apostou em alternativas como venda de pipoca por delivery, distribuição em mercados e programas digitais de fidelização. As iniciativas deram resultado e seguem ativas.
O reflexo aparece nas bilheterias. Segundo Levy, 2026 está entre os melhores anos da rede desde a pandemia.
— Tivemos grandes lançamentos e um aumento importante de público. Estamos muito satisfeitos com os resultados — comemora.
Expansão
Diante dos resultados positivos, as redes planejam a abertura de salas de cinema em novos municípios do interior da região norte do Estado.
— Estamos firmando parcerias público-privadas com mais duas cidades na região de Passo Fundo — afirma o Levy Filho.
— Eu estou fomentando essa possibilidade e acredito que teremos novidades um pouquinho mais para frente — reforça a exibidora paulista Mariá Marins.
Mesmo sem revelar onde os cinemas serão instalados, os exibidores demonstram confiança no potencial da região e na demanda reprimida por cinemas.
























